Aprender e morrer ou apenas aprender

Hoje é um dia bem atípico para muitas pessoas. Dia de Finados (popularmente conhecido como dia dos mortos). Várias pessoas aproveitam o dia para visitar túmulos de entes queridos. Amigos, familiares, aproveitam o momento para recordar e homenagear os que já partiram e, certamente, deixaram muitas saudades. Normalmente, as visitas aos cemitérios representam dor, sentimento de justiça e até mesmo de reviver fatos ou situações inusitadas, como é o caso do caminhoneiro Osvandro Régis do Nascimento, 52 anos. Há quatro anos ele viveu uma tragédia em família. A esposa, Lúcia Nascimento, 47 anos, faleceu após um acidente no interior da Bahia, em Serrinha. Segundo o marido, ela havia ido visitar alguns parentes e na volta o ônibus capotou e Lúcia não resistiu. Na época, disse ele, foi muito sofrimento, tristeza e desespero.

“Ninguém está preparado para perder ninguém, principalmente em desastres, mas aconteceu e não tem como voltar atrás”. Depois de todos os momentos horríveis que a família passou, hoje, Osvandro tem uma outra visão, outro sentimento. Ele conta que todos os anos vai ao cemitério, independente de finados, procura manter o túmulo da esposa limpo, arborizado e bem colorido com flores simples. “Ela sempre gostou de flores do campo, por isso tento mantê-las. Como viajo muito, tenho sempre o hábito de vir aqui no Bom Pastor, sei lá, sinto paz aqui e aproveito para recordar nossos momentos de união, amor, alegria. Às vezes, pode parecer estranho, mas fico horas “conversando” com a Lúcia e descobri coisas incríveis que me fizeram repensar minha via”, falou ele. Naquele momento percebi que o caminhoneiro estava falando de mudanças de comportamento e de pensamento sobre a vida. O casal se conheceu ainda bem jovem, namoraram e se uniram bem rápido, sem que houvesse “muitos namoros”. Ela gostava de costurar e sempre participava de bazares beneficentes, ações que pudesse se doar e ele não gostava muito porque a esposa, estava sempre ocupada, procurando ajudar as pessoas. Mas com o tempo, foram se ajeitando e ele também começou ajudar os outros. Osvandro conta que foi ali que ele começou a pensar nas pessoas de outra forma. “Sabe ela me ensinou a olhar para o outro, me colocar no lugar do outro, a servir. Isso me fez muito bem. Não é você ser bobo, mas ser humano, procurar a cada dia ser melhor. Lógico, a gente erra, tem coisas ou dias que a gente até pensa em desistir, acha que não vale a pena, mas depois de muitas coisas que vivemos e passamos juntos, depois do nascimento de nosso filho, você percebe que nada, absolutamente nada, substitui a paz, o conforto no coração, na alma. Depois que a perdi, tão jovem, doeu muito, chorei, fiquei bravo com Deus, mas entendi que a missão dela era exatamente me lapidar, por isso, hoje, apesar da saudade, da falta do abraço, do beijo, eu venho aqui para agradecer por cada momento que vivemos aqui nesta terra. Eu choro, canto e converso com o meu amor”, relatou ele. Tentei fotografar o caminhoneiro, o túmulo de Lúcia Nascimento no Cemitério Campo do Bom Pastor, mas ele, com muita delicadeza, falando baixinho, disse: “Olha, não me leve a mal, mas não quero exposição. Aceitei conversar com você para dar o meu recado às pessoas que vivem em guerra, que sofrem por tão pouco e não param para pensar que daqui (se referendo a terra)saímos e para cá voltamos sem luxo, sem bens materiais, sem nada. Apenas um corpo que se desfaz com o tempo, mas que pode deixar ensinamentos, reflexões que podem ajudar nas transformações para o amanhã.” Depois de tudo isso, fiz questão de compartilhar este relato e deixar uma mensagem: somos diferentes. Nem mesmo gêmeos univitelinos são literalmente iguais. Temos pensamentos semelhantes e divergentes. Nossos organismos reagem diferente, mesmo quando comemos a mesma comida e sofremos de uma infecção alimentar. Os dedos das nossas próprias mãos são diferentes…sabem porque? Porque somos ÚNICOS e temos de aprender a conviver em harmonia porque, como disse meu entrevistado, aqui é só uma passagem, uma estada temporária, definitivo mesmo é o legado que deixamos e o aprendizado que nos faz crescer. Aí eu penso: quem sabe um dia…podemos nos encontrar, sem dor, sem lamentações, sem deficiências, mas sarados no corpo e na alma…

 

 

 

*Fotos: arquivos Secom/PMU

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